A foto de fundo

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A foto de fundo

 

A foto de fundo deste blog foi retirada do facebook de Kilian Jornet (https://www.facebook.com/kilianjornet), um corredor de montanha que nasceu e cresceu em Sabadel, nos Pirinéus da Catalunha e que queria ser contador de lagos quando tinha apenas 5 anos.

Comprei o livro de Kilian há uns anos quando passeava pela livraria e me chamou a atenção não só o título mas também a capa. o livro chama-se ‘correr ou morrer’. na altura estava muito interessada em pessoas que levavam uma atividade física mesmo a sério, porque na verdade um desporto soa-me a algo que se conquista assim como se conquista a vida. correr e viver têm muito em comum. há um caminho. há principalmente um caminho a ser percorrido.

Pelo título do livro pareceu-me que o autor levava a corrida mesmo a sério. ou corre ou morre. e assim é. Killian ainda é muito jovem mas desde cedo mostrou um dote especial não só para a corrida mas também para o ski e ciclismo. já conquistou uma série de títulos e é dos melhores entre os melhores. na contracapa do livro pode ler-se “ com apenas cinco anos, já tinha subido ao cume dos montes Aneto e Posets. Aos dez anos, completou a travessia integral dos Pirinéus. Pouco depois começou a competir nos escalões júnior, a ganhar título após título, e a quebrar todos os recordes. Quatro vezes campeão mundial de skyrunning, e bicampeão mundial da UTMB (Ultra-Trail do Monte Branco)”. a edição do livro é de 2012. neste momento já deve ter voado ainda mais longe.

 

Então como acontece com quase todos os livros que encontramos por acaso, revelou-se uma pequena preciosidade e disse-me muito.

É uma coisa que me fascina. alguém que se dedica de corpo e alma a uma coisa tão específica como… correr. o que é que a corrida tem que atrai tanto os atletas e os leva a fazerem só disso a vida deles? é um desafio. é um desafio constante. eu não sou atleta mas consigo perceber. fazer exercício, mesmo que de forma lúdica é uma coisa que me satisfaz e preenche. o corpo pede. é uma coisa que o corpo pede mesmo e no final… ahh.. no final é bom! é muito bom, porque fizemos o que tinha de ser feito e não é só o corpo que agradece. a mente também.

Antes de qualquer exercício há uma energia latente dentro de nós que se não for utilizada apodrece. apodrece mesmo. a mente fica turva, não há clareza, os pensamentos andam ali às voltas e consomem o cérebro, não respiramos bem, o que provoca uma certa angústia, não sabemos bem porquê, parece que alguma coisa está errada mas é só porque estamos a respirar mal e superficialmente. os pulmões precisam de ar renovado, precisam de estar saudáveis e cheios, o coração também precisa de bater mais e fortemente e o cérebro precisa de novo sangue. então vamos correr (ou fazer uma longa caminhadazinha) e no final, o corpo está livre, está relaxado, a mente renovada e o peito, aberto, deixa entrar mais facilmente o ar. agora sim, estamos bem, estamos como deveríamos estar. estávamos mal e voltámos ao equilíbrio. estamos felizes.

Mas isto é só correr porque sim. no caso de Kilian não é bem assim. cada corrida é um projeto, é um grande desafio. cada maratona exige preparação física, todos os pormenores são importantes, é preciso conhecer-se a ele próprio muito bem, perceber os seus pontos fortes e fracos, estar atento à nutrição e à desidratação, saber quando parar e quando avançar. É preciso treinar, treinar, treinar.
Mas quando o desafio é demasiado grande, tudo começa a depender cada vez mais do corredor. é ele que tem de controlar a sua viagem. é ele que se tem de adaptar. e então não basta conhecer o corpo e treiná-lo. é preciso também um grande controlo e treino da mente. eu não tinha bem noção disto. sabia, claro, que seria preciso ter uma mente forte… mas não sabia que em muitos casos, naquelas maratonas mais exigentes (como por exemplo no Tahoe Rim Trail (Califórnia) em que se percorrem 270km (+- a distância entre Aveiro e Lisboa) à volta do lago Tahoe e corre-se por dois dias e duas noites seguidas!!!), é absolutamente normal ter alucinações, perder os sentidos e o controle da mente, ao ponto do atleta já não ter noção de nada e não conseguir fazer as escolhas que pareceriam as mais óbvias para alguém com a cabeça em condições. é por isso preciso conhecer muito bem a natureza da sua mente para evitar estas situações ou para saber lidar com elas da melhor forma se acontecerem.
Também percebi que o corpo e a mente têm reservas extraordinárias e quando se pensa que já não se consegue mais, de repente, algo acontece, e uma energia, vinda de não se sabe bem de onde, surge! o pior é mesmo parar! o corpo não pode parar… senão vai abaixo porque assume que é hora de recuperar. não se pode parar… agora é até ao fim!
E o que acontece quando um atleta corta a meta? acredito que aconteça, ao mesmo tempo que uma grande felicidade, também uma certa tristeza. isto sou eu a dizer, mas pelo que li, parece-me isto. porque foi um fim. acabou. e agora? se acabou, algo vai ter de começar a seguir. e surge um certo vazio e pressão como quando temos de começar algo novamente. e então porque é que continuam sempre a correr? começar e acabar, começar e acabar… qual o objetivo afinal disto tudo? para quê começar, se acaba? e porquê continuar quando já se alcançou tudo o que se queria alcançar? este dilema aconteceu a Kilian. chegou a um ponto em que já tinha alcançado tudo o que sonhava. e então para quê continuar? é que a corrida não é só correr. a corrida traz consigo muita coisa. e afinal não é o alcance da meta que importa assim tanto (e pronto esta frase tinha de vir não é verdade?). corre-se por gosto. corre-se porque há tanta coisa à volta, há sempre novos desafios, há sempre alguma coisa nova que se aprende, há sempre paisagens novas, há sempre novos ares para respirar, há sempre momentos importantes e inesquecíveis que surgem e há sempre pessoas a viver com ele cada aventura, e ele destaca a importância das pessoas. há uma equipa por trás da corrida, não é só o Kilian que está a correr e isso também importa. ele corre pela equipa!

E corre porque, simplesmente, o corpo lhe pede! corre para viver! corre para sentir!

E a competição? será que corre para competir? certamente que sim. a corrida tem mais interesse se correr e competir com outros, mas afinal também não é bem isto que interessa. nas palavras de Kilian, “não é preciso competir para sentir a emoção da chegada, a sensação de cortar a fita. Também podemos sentir só a felicidade sem controlo, eliminando a raiva, os artifícios que o público oferece, o facto de ter vencido outros corredores, os flashes dos fotógrafos ou das televisões. É a felicidade por nós próprios, por sentirmos a força que nos invade pelo facto de termos conseguido, a mais intrínseca, sem raiva; é uma felicidade doce que nos transporta para um mundo de calma absoluta, onde o tempo e o espaço se detêm e sentimos o corpo e a alma repousarem nas nuvens.”

Gosto particularmente deste atleta porque ele é muito sincero. percebe-se que ama aquilo que faz e que não poderia fazer outra coisa. ele torna-se grande com a corrida por ser tão devoto a ela e porque sabe o que ela significa realmente. significa algo mais do que simplesmente correr. para ele significa viver com um grande equilíbrio e sintonia. tem também um respeito enorme pela natureza e capta sempre imagens espetaculares das quais sou fã. daí a escolha deste fundo para o meu blog. adoro montanhas com neve e céu limpo. é um cenário cristalino e imutável e esta imagem transmite isso mesmo.

Deixo aqui um excerto do livro, a parte final, onde dá para perceber que Kilian é um atleta sensível, cheio e feliz:

“Cheiro a terra, sinto a erva molhada, a primavera, o cheiro a terra forte, com um aroma inconfundível a vida. Sou feliz. Paro um instante para descansar com as mãos apoiadas nos joelhos, mas já não noto o cansaço. Descobri que não persigo ninguém e ninguém me persegue. A felicidade não é o destino, é apenas o caminho a seguir, e perco o tempo neste caminho, afastando o fim inevitável. A pele fria, o corpo quente e a respiração ofegante rejuvenescem-me. O coração volta a acelerar, o ar que expiro dos pulmões volta a cortar o frio e as minhas pegadas afastam-se entre os vales.”

 

Simone Sul Garda, Itália (https://www.facebook.com/kilianjornet)

 

 

e pronto… a vida é em tudo como na corrida… parece, não é?

 

 

“Desato-me a rir. Estive prestes a deixar-me convencer pelas trapaças do pensamento: isto não é felicidade, é só comodidade! Salto da cama, acendo a luz e ligo a música do rádio” ~ “Correr ou Morrer”, Kilian Jornet

 

Bora correr? 😀

 

 

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