Tens medo de mim?

tens medo de mim?

é claro que não tenho medo de ti.

tens medo do amor?

ora, que arrogância. recuso os teus avanços, logo tem de ser porque tenho medo do amor.

tens medo de um beijo?

ninguém no seu perfeito juízo tem medo de um beijo. – fechou a bagageira da carrinha e virou-se, dando com ele mais perto de si do que esperava. demasiado perto. – nem penses sequer nisso – argumentou ela, inspirando, as costas coladas à carrinha à medida que ele avançava ainda mais.

é apenas um beijo – declarou, aproximando-se, e ela não acreditava que fosse possível que ele estivesse tão perto sem na verdade lhe tocar. – não há motivos para ter medo, certo?

tyler colocou uma mão contra a carrinha, perto do ombro dela, e inclinou-se. ela podia esquivar-se, é claro. bastava dar um passo ao lado e voltar a virar-lhe as costas. mas então ele baixou a cabeça e de perto ela conseguiu ver as minúsculas linhas em forma de teias de aranha em redor do branco dos olhos dele, e parecia que outrora tivera uma orelha furada. estas coisas contavam histórias acerca dele , mas bastara um bocadinho ínfimo de curiosidade e agora estava perdida.

lentamente, os lábios dele tocaram nos seus e sentiu um formigueiro, quente, como óleo de canela. então, a cabeça dele inclinou-se ligeiramente e sentiu uma fricção, vinda de nenhures, que lhe percorreu o corpo. os seus lábios entreabriram-se quando arquejou de surpresa e foi aí que as coisas ficaram fora de controlo. ele aprofundou o beijo, a sua língua precipitando-se para dentro da boca dela, e um milhão de imagens disparatadas acorreram-lhe ao cérebro. não eram oriundas dela, eram imagens dele – nudez e pernas entrelaçadas, mãos dadas (…). que estranha e demente magia era esta? oh, meu deus, mas era tão bom. de repente as mãos dela estavam por todo o lado, tocando, agarrando, puxando-o mais para si. tyler pressionava-a contra a carrinha, a força do seu corpo quase a suspendia no ar. era demasiado, não tardaria a esmagá-la, contudo a ideia de parar, de quebrar o contacto com este homem, este maravilhoso homem, era dilacerante.

claire interrogara-se como seria um beijo dele, se a sua agitação, a sua inquietação se desvaneceria. ou seria que ainda a tornaria pior? o que descobriu foi que, na verdade, ele a absorvia, como se fosse energia, e depois a irradiava como se fosse uma brasa, aquecendo-a. que revelação.

os silvos invadiram aos poucos os seus sentidos e claire afastou a cabeça, vendo dois adolescentes passarem no passeio a sorrir para eles.

ficou a vê-los afastarem-se por cima do ombro de tyler. ele não se mexia. respirava pesadamente, cada inspiração pressionando-lhe os seios, de repente tão sensíveis que era quase doloroso.

larga-me – disse ela.

acho que não consigo.

ela empurrou-o e deslizou para o lado. ele caiu para a frente, contra a carrinha, como se não tivesse força para se ter de pé. ela compreendeu porquê quando tentou caminhar até ao lado do condutor e quase não conseguiu. estava fraca, como se não comesse há dias, como se não andasse há anos.

tudo isto com um só beijo. se alguma vez fizermos amor, vou precisar de uma semana para recuperar.

ela falava do futuro com tamanha facilidade. as imagens que recebera dele eram nítidas. contudo, ela não podia dar início a isto, porque depois terminaria. histórias como esta terminavam sempre. não podia aceitar este prazer, pois passaria o resto da sua vida a sentir falta dele.

deixa-me em paz, tyler – declarou, ao mesmo tempo que ele se descolava da carrinha, o peito ainda subindo e descendo rapidamente. – isto nunca devia ter acontecido. e não voltará a acontecer.

meteu-se na carrinha e arrancou a toda a velocidade, batendo nas beiras dos passeios e passando sinais de stop todo o caminho até casa.

~ “Garden Spells”, Sarah Addison Allen

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