Comportamento inesperado

guiava o carro de uma forma totalmente maluca. não era maluca por opção mas por descontrolo. estava muito envergonhada porque atrás de mim vinha outro carro a perceber a asneira que eu ia a fazer. ia completamente descontrolada e subia os passeios e tudo. depois, quando parei em frente à mercearia, o homem que vinha a conduzir o carro atrás de mim disse-me que aquilo era de loucos, que conduzia mesmo muito mal e que era absolutamente maluca, enquanto revirava o dedo junto da testa e se afastava de mim. e eu pensei, tenho de disfarçar. eu vou dizer que é de propósito. não sei se consegui dizer alguma coisa, mas fiz questão de ser bem claro para mim: eu fiz de propósito. então parei o carro à frente daquela loja, antes que me mandasse contra alguma parede. o senhor veio cá fora perguntar o que eu queria. e eu mudei de perspetiva de uma forma muito repentina, de uma forma urgente, tinha de ser, senão ia fazer uma figura realmente triste. e disse: eu gostava de saber se deixei o meu pássaro por aqui. por acaso não viu o meu pássaro? lembro-me de ser uma coisa tão desconfortável, impossível de fazer, impossível de alguém acreditar no que eu dizia, eu quase tinha a certeza que o homem ia dizer: não sejas parva, não sejas ridícula. ninguém ia acreditar, muito menos achar piada. mas tentei. e sentia-me tão insegura por ser uma coisa que não estava nada habituada a fazer, mas que tinha de ser feita. afinal estava ali à procura do meu pássaro e não porque tinha de parar o carro para evitar que me matasse enquanto o conduzia. e o senhor só disse: não, não vimos pássaro nenhum… ui que alívio! afinal ele acreditava. afinal podia continuar. e depois continuei a disfarçar e, já agora que estava ali, gostava de ver alguma coisa. quando entrei na loja fingi estar à procura de canetas. então pus-me a olhar para elas, mas nenhuma despertava realmente o meu interesse. aquela pequena brincadeira tinha sabido bem, então decidi continuar. eu continuava a brincar, a falar de uma forma como se aquela caneta que andava à procura fosse realmente muito importante para mim. e continuava a vestir a minha personagem. então estava prestes a levar uma caneta muito simples que não gostava particularmente, até que insisti na procura e na brincadeira. ia-me tornando cada vez mais leve e aquilo ia sabendo cada vez melhor. por fim encontrei um conjunto de canetas realmente espetaculares, que me atraíram muito a atenção. eram pequeninas e fininhas e cheias de brilhantes por fora e de umas cores bem diferentes. havia pacotes de vários tons. acabei por escolher um de tons arroxeados e azuis. decidi experimentar para ver se escreviam bem. mas não, não escreviam muito bem e às tantas já tinha experimentado tantas canetas que já estava uma confusão enorme naquele balcão e tinha baralhado tudo ao ponto de já não saber onde estavam as canetas deste último pacote que tinha escolhido. mas eu não estava muito preocupada com aquela confusão toda. continuava a fingir. então tive que ir escolher outro pacote e decidi que seria a minha última escolha porque já estava ali há muito tempo. mas não encontrava nenhum em tons arroxeados e azulados. até que de repente apareceu à minha frente um pacote de canetas cheias de brilhantes por fora, iguais às primeiras, mas agora eram de tons verde vivo e amarelo canário também muito intenso. decidi: é este. houve um sentimento de ligação muito grande. não podia haver mais canetas que me cativassem tanto. depois pensei um pouco: espera lá, eu não costumo gostar muito destas cores, normalmente sou mais de azuis, roxos e pretos, mas a minha cabeça não podia decidir. aquelas eram as cores certas, aquelas eram as cores que eu queria realmente e pelas quais me sentia atraída de uma forma tão verdadeira e óbvia. levei-as comigo.
a leveza, a descontração, a falta de seriedade, a brincadeira, o sentido de humor levaram-me até elas. e começou tudo com um erro de falta de controle que me atirou para fora de mim, que me obrigou a fazer isso. o carro estava tão louco, tão descontrolado que me obrigou a continuar a seguir esse caminho e a descobrir o que não sabia ser possível: gostar de um verde lima intenso.

 

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2 thoughts on “Comportamento inesperado

    • AAAAhahah! mariana! que surpresa! 🙂 foi um sonho que eu tive…
      ai agora estou a pensar.. que vergonha! às vezes penso mesmo que só estou a escrever para mim.. lol
      beijinho e obrigada!

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