Desejo

Tudo o que posso dizer é que estou louco por ti. Tentei escrever uma carta e não consegui. Estou à espera impacientemente por te ver. Terça-feira está tão distante. E não só terça-feira – estou a pensar quando é que virás para passar a noite, quando é que posso ter-te por um longo período. Atormenta-me ver-te só uma hora e depois entregar-te. Quando te vejo, tudo o que queria dizer desaparece. O tempo é tão precioso e as palavras são estranhas a nós. Mas tu fazes-me tão feliz, porque eu posso, falar contigo. Amo a tua vivacidade, os teus preparativos para voar, as tuas pernas como um vício, o calor entre as tuas pernas. Sim, Anais, quero desmascarar-te. Sou demasiado galante contigo. Quero olhar para ti longamente e com ardor, arrancar-te o vestido, apalpar-te, examinar-te. Sabes que ainda mal olhei para ti? Há ainda demasiada santidade presa a ti. Não sei como te dizer o que sinto. Vivo numa expectativa perpétua. Tu vens e o tempo desliza num sonho. É só quando te vais embora que me apercebo completamente da tua presença. E depois é demasiado tarde. Tu paralisas-me. Tento imaginar a tua vida em Louveciennes mas não consigo. O teu livro? Também isso parece irreal, só quando tu vens e olho para ti é que a imagem fica mais nítida. Mas vais-te embora tão depressa, não sei o que pensar. Sim, vejo a lenda de Poushkine claramente. Vejo-te no meu espírito sentada naquele trono, jóias à volta do teu pescoço, sandálias, grandes anéis, unhas pintadas, estranha voz espanhola, vivendo uma espécie de mentira que não é exatamente mentira mas um conto de fadas. Isto está um pouco embriagado, Anais. Digo comigo mesmo: “Aqui está a primeira mulher com quem posso ser absolutamente sincero”. Lembro-me de dizeres: “Podias enganar-me, eu não saberia.” Quando caminho pelas avenidas e penso nisso, não posso enganar-te – e no entanto gostaria de o fazer. Quero dizer que nunca posso ser absolutamente leal – não está em mim. Gosto demais das mulheres, ou da vida – qual é, não sei. Mas ri, Anais… Adoro ouvir-te rir. Tu és a única mulher que teve um sentido de alegria, uma sensata tolerância – não, mais, tu pareces incitar-me a trair-te. Amo-te por isso. E o que te faz fazer isso – amor? Ah, é lindo amar, e ser livre ao mesmo tempo.

Não sei o que espero de ti, mas é algo parecido com um milagre. Vou exigir-te tudo – até o impossível, porque tu o encorajas. Tu és realmente forte. Até gosto da tua falsidade, da tua traição. Parece-me aristocrático. (Será que aristocrático soa mal na minha boca?)

Sim, Anais, estava a pensar em como podia trair-te, mas não consigo. Quero-te. Quero despir-te, vulgarizar-te um bocadinho – ah, não sei o que estou a dizer. Estou um bocado bêbado porque não estás aqui. Gostava de poder estalar os dedos e voilà Anais! Quero ser o teu dono, usar-te, quero foder-te, quero ensinar-te coisas. Não, não te aprecio – Deus me perdoe! Se calhar até quero humilhar-te um pouco – porquê, porquê? Por que é que não me ponho de joelhos e apenas te venero? Não posso, amo-te divertidamente. Gostas disso? E querida Anais, sou tantas coisas. Só vês as coisas boas agora – ou pelo menos levas-me a pensar isso. Quero-te por um dia inteiro pelo menos. Quero ir a sítios contigo – possuir-te. Tu não sabes como sou insaciável. Ou covarde. E tão egoísta.

Tenho sido bem comportado contigo. Mas aviso-te, não sou nenhum santo. Penso principalmente que estou um bocado bêbado. Amo-te. Vou agora para a cama – é tão doloroso ficar acordado. Sou insaciável. Hei-de pedir-te que faças o impossível. O que é, não sei. Tu me dirás provavelmente. Tu és mais rápida do que eu. Amo o teu sexo, Anais – ele põe-me doido. E a maneira como dizes o meu nome! Meu Deus, é irreal. Escuta, estou muito bêbado. Estou magoado por estar aqui sozinho. Preciso de ti. Posso dizer-te tudo? Posso, não posso? Vem depressa então e enrosca-te a mim. Faz amor comigo. Enrola as tuas pernas à minha volta. Aquece-me.

Henry e June – Do diário íntimo de Anais Nin, Anais Nin

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