O corpo

Há muito que o corpo me interessa.

No início ignorava-o. Depois passei a olhar para ele por saber que podia ter problemas se o continuasse a ignorar. Nesta altura o corpo interessava-me no sentido em que se o trabalhasse, a minha mente se transformaria. Apesar de dar atenção ao corpo, só o fazia porque sabia que daí vinha um benefício à mente. Depois percebi que, para além da mente, o corpo podia influenciar as minhas sensações, os meus sentimentos, as minhas emoções. Percebi que podia ficar mais amorosa e menos rígida nas minhas atitudes e desta forma as minhas relações podiam transformar-se também. O gelo começou a quebrar-se. Mas, mesmo assim, utilizava o corpo como um meio para alcançar alguma coisa. Mas o corpo merece mais que isso.

Agora tento dar-lhe o destaque que merece. Dou-lhe atenção. Dou atenção à beleza do meu corpo. Só isso. E é muito.

Comecei a sentir um certo prazer só de olhar e perceber o meu corpo. A beleza encerra e esconde muita coisa. Quando a descobrimos verdadeiramente, algo em nós também é descoberto. Vontades que evitavam aparecer, agora mostram-se sem problema.

Com a descoberta da beleza vem a vontade de fazer algo. O Reconhecimento da Beleza e a Vontade De/Por Algo são sentimentos eróticos. São atrevidos, são descarados, desprovidos de preconceitos.

Achar algo belo e, muito mais quando este ‘algo’ é o meu próprio corpo, é, de certa forma, afirmar-me e deixar a timidez de lado. É atrever-me a olhar com mais atenção e permitir que a minha verdadeira relação com ele se mostre, perceber o que sinto em relação a ele, perceber o que me atrai, descobrir as suas belezas escondidas e pouco óbvias e admitir, firmemente, as mais óbvias. Daí surge um certo conhecimento que não tinha de mim.

Assim é, quando descubro a beleza do meu corpo. Deste entendimento, várias vontades que não me permitia aparecem. Assim como não permitia olhar o meu corpo e reconhecer-lhe beleza, também não me permitia ouvir as minhas vontades mais íntimas. É uma fina relação, mas ela existe.

É um processo de libertação muito grande.

Este processo, de certa forma, já se ia encaminhando, mas foi com a leitura de um livro muito especial que finalmente tomei consciência da importância de atendermos ao nosso corpo.

Quando te permites descobrir a Beleza do teu corpo, também te permites ceder a algumas vontades.

O livro é (título original) “Le corps a ses raisons” de Thérèse Bertherat e Carol Bernstein

Falo do prazer de olhar um corpo. Olhar apenas e descobrir a sua beleza já é muito revelador. Mas a verdade é que o corpo pode ser revelador de outra forma também (apesar de tudo se conjugar de alguma maneira). Na verdade acho que podemos falar em 3 formas diferentes: olhar para o corpo, senti-lo, apreciá-lo, acarinhá-lo e deixar que ele nos revele a sua beleza, poder e vontades próprias ou então trabalhá-lo de uma forma física e daqui surgem outras 2: trabalhando fisicamente de forma consciente e inconsciente (ginástica atraída por metas e objetivos, distraindo-nos do momento). Estes 3 misturam-se. E então, vendo de outra perspetiva, talvez existam duas grandes formas de ver o nosso corpo: uma mais mental e outra mais sensual, erótica, criativa, intuitiva. Uma mais mental e outra mais sentida de uma forma profunda. Uma mais inconsciente e outra mais consciente. O trabalho físico pode estar, ou não, envolvido em todas elas.

Todas são interessantes à sua maneira, mas este livro deixa-nos uma curiosa sugestão: sentir o corpo a um outro nível, mais profundo e que pode curar. O nosso estado tem muito a ver com a relação que temos com o nosso corpo. Criar uma relação mental com ele é pouco!!

É o estado do corpo a priori que determina a riqueza da experiência vivida. O corpo desperta, toma iniciativas, já não se contenta em receber, suportar, encaixar. Ao tomar consciência do nosso corpo, damos-lhe oportunidade de viver.

Se criarmos uma série de exercícios físicos e os executarmos do princípio ao fim, e quando chegarmos ao fim, este nos parecer realmente um ‘fim’, então a nossa relação é em grande parte mental, bem organizada e expectável. Daqui podem surgir benefícios, claro, mas a meu ver, um pouco secos.

Então o que é criar uma relação, para além da mental, com o corpo? É muito fácil. Se, enquanto observamos, sentimos ou movemos o corpo…

percebermos algo de uma forma inesperada mas que faz todo o sentido,

temos a sensação de ter descoberto algo muito revelador, do nada, e dizemos ‘aha! é isto!’,

percebemos qual a razão profunda do nosso mal estar físico,

temos um sentimento de frescura e novidade mesmo que não saibamos porquê (ou queiramos verbalizar),

nos sentimos profundamente em paz e enraizados na nossa própria pele,

sentimos um amor profundo por nós e com isso uma simples tarefa ou ação realizada fisicamente se torna um grande prazer porque nos sentimos bem no nosso corpo, (andar relaxadamente é um prazer!)

percebemos que o corpo tem vontade de se mover espontaneamente enquanto comunicamos…

se isto e muito mais acontece, então criámos uma relação não mental com o corpo e percebemos o que ele tanto nos queria revelar, o que nos queria fazer sentir, como queria que nos movêssemos.

É verdade, o corpo tem vontades! E bem sábias.

 

E a partir daqui, destas descobertas, caminho livremente, com uma mente que condiz com a forma como me movo. Mais feliz certamente.