Qual é o problema?

Nós nascemos.

E depois crescemos e enquanto isso os nossos pais amarram-nos como se fôssemos deles. Porque é tão giro e divertido ou então… porque não é nada giro e é tudo muito perigoso e não se pode correr o risco de deixar que não sejamos propriedade.

E então nós vamos crescendo assim ao lado deles. Somos diferentes. Uns mais rebeldes que outros. Uns mais independentes que outros. Mas toda a gente insiste em encontrar uma fórmula certa para educar o filho. E todos o fazem da mesma maneira, ou pelo menos tentam. Quem o faz é bom pai, é boa mãe. Quem não faz, não é. A questão é que chegaram novos seres e todos se querem concentrar neles sem nunca antes se terem concentrado neles próprios. Ou seja, os pais são filhos com nomes de pais. Depois, claro, uma confusão aparece. Os problemas dos filhos juntam-se aos problemas dos pais e é uma balburdia, uma feira completa, em que muitas vezes os filhos são mais maduros que os pais, em muitas situações pelo menos, mas os pais não admitem isso e os filhos acreditam. A idade não quer dizer nada, está claro!

Tudo bem. As coisas não têm que ser perfeitas, obviamente. Mas as pessoas complicam tanto tanto tanto por serem tão infantis e pouco conscientes. Há sempre problemas, eles têm que se resolver, é certo, mas porquê complicar? Ai se houvesse solução, ai se eu soubesse o que fazer. Muitas vezes as pessoas têm este pensamento. Há solução, é claro que há solução, mas primeiro é preciso querer procurar por ela. Primeiro é preciso estar consciente que há um problema e que se pode resolver.

A solução é esta: a clareza.

Primeiro vem a clareza. Depois o problema tem de ser resolvido, já que pela clareza ele não desaparece. É preciso reconhecê-lo primeiro.

É claro que estamos a evoluir. O mundo não está parado. Muitas pessoas pensam que o mundo se vai resolver no prazo de vida delas. Isso é estúpido! Depois de desaparecerem, o mundo vai continuar a sua viagem e vai ser tão melhor. Ohhh… pena não estar cá para ver 😉 Então estamos a evoluir. Por isso agora há pessoas com dramas gigantes, problemas enormes, vidas miseráveis. O que é que são os problemas? Eles vêm todos da relação com os outros e comigo próprio. Não há problemas para além destes. (e a política? e o esquema do mundo?). Podia-se dizer que na verdade não há problema para além do problema da relação comigo próprio. É verdade. Mas com esta frase parece que fica muita coisa por dizer. Fica demasiado geral.

Então, no mundo, existem pessoas cheias de problemas e existem pessoas livres. No mundo há este espectro todo. Do mais inferior para o mais elevado? Talvez. Eu acho que todos queremos ser livres e acho que não há outro propósito. Mas isso não interessa.

Agora, há famílias e pessoas cheias de problemas e nem sequer têm visão. É verdade. É normal que assim seja. O mundo continua a evoluir e elas têm o seu papel. Elas também continuam com o mundo. Deixem-nas.

Mas, a verdade é que existe uma solução. Essa solução é única: é a clareza cada vez maior, é a sensibilidade cada vez maior, é olhar a situação de fora. Isto acontece assim ou então há quem se resolva de vez, de um momento para o outro e então vive colado ao aqui e ao agora e, quando assim é, uma sabedoria chega inevitavelmente e é tudo tão mais óbvio. Ou então, há quem lentamente perceba que pode haver solução. Não a cada um dos problemas, mas ao problema maior que os cria a todos e, apesar dos problemas continuarem a existir, eles já não se vão chamar assim. Agora são feitos da mesma matéria que os ‘não problemas’. Não há distinção entre ‘tudo bem’ e ‘problema’ porque simplesmente uma pessoa livre, ou relativamente (o que é relativamente livre?), não se senta no ‘tudo bem’. O problema é criativo. Uma pessoa livre é criativa a todo o momento. Não há um momento em que chega o problema.

Então o problema de cada um começa nos pais. Aparentemente nada têm a ver comigo e eu posso até ficar bem frustrado por não ter tido uns pais que me deixassem voar mais um pouco (isto só para dar um exemplo). Mas, como assim? Aquilo que eu sou estende-se afinal até onde? Não será por minha causa ter tido estes pais? ‘Minha’? Quem é o ‘eu’ que possui? Afinal o resultado está em mim. Eu tenho em mim um pouco do que é a minha família.

E agora? O que acontece? Há solução?

Sim, a clareza. E com ela vem uma conversa que eu precisava de ter com a minha mãe para mudar algo. É simples. Ela só não se tinha apercebido como queria fazer tudo por mim, sem me deixar agir sozinha. Mas eu percebi e disse-lhe. E ela também percebeu. Da próxima vez basta dizer ‘Eu faço, mãe, deixa estar.’ E ela vai percebendo pouco a pouco e larga o padrão. E evitou-se que isto se prolongasse até demasiado tarde. Sim, isso é possível! É assustador, mas é. É preciso saber falar, sim. E é preciso dizer as coisas certas. Para isso é preciso estar alerta. A clareza, a sensibilidade treinam-se. É preciso isto para perceber o problema e para tentar resolvê-lo. Ou transformá-lo, caso a ‘solução’ (note-se as aspas) ‘não exista’ (note-se as aspas). Sim, um problema pode ser transformado. Isto porque muitas vezes só é problema porque teimamos que o seja.

Às vezes parece que andamos todos ceguinhos. Apesar, claro, de termos evoluído em muita coisa. Mas o problema fundamental parece que existe e ainda está bem presente. É natural que assim seja. Também parece que agora o nosso potencial para o resolver seja grande. Afinal somos inteligentes. Não somos homens das cavernas. Mas também parece que esse potencial foi ligeiramente tapado por um afastamento do mundo natural. Estar junto da natureza torna-nos mais claros. Basta experimentar e ver a diferença. E não comemos bem. Estamos isolados, dentro de casa, sem uma boa alimentação. Isso reflete-se, claro. Mas, ignorando este problema adicional, o problema ainda continua lá. Então, como ficar mais claro? Meditando. Ou simplesmente ter a certeza que posso ser mais claro. Há pessoas que nascem com tendência à sabedoria.

Vai sempre dar tudo ao mesmo: clareza.

E vamos vivendo a vida com os nossos medos e crenças de nascença e os nossos medos e crenças criados em nós pelos outros à medida que vamos crescendo, já que nem todos os problemas são resolvidos na hora certa. Marcas são criadas. Parece uma bola de neve não é?

E acreditamos tanto neles, vincamo-los tanto. O segredo é questionar, ir desvincando. Vamos tornando-nos maiores perante estes medos até eles nos parecerem insignificantes. E são. São sempre. Há sempre uma forma de descobrir como é que um medo se pode tornar insignificante. Às vezes até percebemos o ridículo que é, mas mesmo assim trememos em frente a uma pessoa que admiramos muito ou que nos marcou negativamente. Há uma forma deste tremer desaparecer de vez?

Sim, através da cura, da terapia. Esta terapia não tem de ser numa consulta.

E os nossos talentos? Eles nascem connosco. Aqueles mesmo óbvios. Nós sabemos que eles existem mas muitas vezes não os mostramos no seu máximo esplendor. Porquê? Por causa dos nossos medos. Voltamos ao mesmo. Over and over again. Como quebrar a barreira? Clareza, ver as coisas de uma perspetiva maior, cura.

Todos precisamos de ser curados? Sim. Temos essa responsabilidade.

E não, não nos vamos tornar todos iguais. A cura torna-nos no que somos. Todos diferentes.

 

Advertisements